domingo, 22 de julho de 2012

SURPREENDENTE


Se há uma coisa verdadeiramente surpreendente no Mascarado é a capacidade dele fazer com que a surpresa seguinte seja sempre melhor que a anterior. Minha noite foi uma sequência de encantamentos e não recordo bem em que momento de exaustão ou felicidade adormeci. Quando despertei, estava no quarto dele, na cama king size, em meio a alvos lençóis e travesseiros de pena de ganso. Olhei para o lado e não o vi. Levei a mão ao rosto e sim, minha máscara estava lá. Por um segundo achei que ele pudesse ter tido a curiosidade de saber quem eu era. Quem eu sou. Porque, com certeza, depois dessa noite, não sou mais o que eu era antes.

Em algum lugar do quarto, talvez por todos os cantos, tocava delicadamente Twilight Song, do Charlie Haden. Eu sei pois sou louca por esse álbum (Night and the City) que ele gravou com o Kenny Barron. Agora, como o Mascarado descobriu, não me pergunte. Às vezes eu acho que ele lê a minha mente. Não pode ser uma simples coincidência.

Desci da cama, nua, e só então percebi a coisa mais inacreditável: o quarto estava cheio da minha presença. Eu estava em todos os lugares, em todas as paredes! Na penumbra, iluminadas por pequeninas luzes direcionadas, fotografias de partes do meu corpo, em preto e branco, estavam emolduradas e penduradas para onde quer que olhasse. Grandes coxas, bunda, lábios, colo, pernas, pés, mãos, queixo, pescoço, púbis, todas as minhas curvas e reentrâncias se exibiam em poses sensuais, lindas, me transformando no abecedário da anatomia – e porque não da alma?, feminina. Fiquei absolutamente atordoada, estupefata, maravilhada, não sei que palavra usar.

sábado, 21 de julho de 2012

PODEROSA E SUBMISSA


Fenomenal: raro, singular, extraordinário, admirável, formidável, espantoso, assombroso, surpreendente, gigantesco, descomunal. Fiquei em dúvida sobre qual sinônimo pescado no dicionário usar, usei todos. A casa do mascarado nos Jardins, em São Paulo, era algo como ele: indescritível. A entrada era camuflada por plantas, muitas plantas, mal se via a fachada. Mas quando os portões de madeira maciça se abriram, revelaram um verdadeiro Jardim do Éden, com esculturas aqui e ali e uma pontezinha linda que cruzava um pequeno lago com uma fonte levava a um recanto com redes e futons sobre estrados. Foi ali que nos instalamos.

A noite estava agradável, uma brisa soprava fininho, daquelas que não mata de frio, mas arrepia a pele. A lua espiava entre nuvens e, além dela, duas tochas eram tudo o que iluminava o ambiente. Uma música tribal, densa, excitante, amornava o ar. Despojado, ele tirou os sapatos e, com os pés descalços, se dirigiu a uma mesinha de canto onde havia uma bandeja com bebidas. Voltou com dois cálices pequenos. Olhei para aquela imagem, Deus grego mascarado de calça cargo e camisa cheia de amarras, entreaberta no peito, sorriso e covinhas convidativos, vindo em minha direção. Suspirei. Ele parou no meio do movimento e, depois de alguns segundos me contemplando, disse: “Nunca vou esquecer este momento”. Tirou as palavras da minha boca.

sábado, 14 de julho de 2012

ARIGATÔ


Às 18h, o interfone tocou. Eu estava no quarto, afogada em rendas e espartilhos, na maior dúvida: o que vestir? Raramente entro em crises deste tipo porque só tenho no armário peças que amo, mas hoje não estava em climinha de amor: fervia de paixão. Precisava de uma lingerie que transbordasse meu rio incandescente feito barreira que se rompe com a intensidade não da água, mas do fogo. Bééép. O interfone. Era o porteiro anunciando a entrega de uma encomenda. “Encomenda?”, não fazia ideia do que se tratava. Mandei subir.

Um senhor com quepe e luvas brancas, muito sério, me estendeu uma caixa com um laço enorme de presente. “Da parte do senhor Jorge, com a sua licença”, e se retirou. Fiquei segurando o pacote, atordoada. Parecia cena de filme - diretor, qual é a minha fala mesmo? Perplexa, mas absolutamente encantada, desembrulhei o laçarote e abri a tampa. Em meio a um papel de seda finamente embrulhado, estava um conjunto de lingerie perolado, lindíssimo, com uma deslumbrante máscara de porcelana chinesa. E uma carta. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

SURPRESINHA MATINAL


Acordei com a campainha tocando. Droga, quem seria num domingo de manhã? Sentei na cama, olhei pro Rafa ao meu lado, que abriu os olhos e sorriu. Exclamei: “Que preguiça de levantar”. Desabei sobre o travesseiro, me esticando feito uma gata manhosa. Esperamos soar uma segunda vez, mas nada aconteceu. Minto. Começou a acontecer. O Rafa beijou a minha mão com uma boca molhada e gostosa e foi me puxando como carretel de pescaria. Fui desfalecendo dengosa. Quando ele passou do ombro, já estava chegando no pescoço, béééé, a campainha tocou de novo.

“Quer que eu atenda?”, perguntou. “Deixa, acho que sei o que é”, pensei na síndica e na possível queixa ao meu queridinho ter estacionado o carro na vaga do Patrick, um vizinho que está viajando. Joguei a camisa social do Rafa sobre o corpo e abri a porta seminua. Era o zelador com uma cesta de café da manhã enorme, coisa de cinema. Uau! De quem seria? Havia um cartão no formato de uma máscara. Senti um arrepio na espinha, meu coração disparou, só podia ser ele: o Mascarado. Segurei junto ao peito, mas não li. Não queria estragar o fim de semana tão gostoso com um dos meus mais antigos e queridos casos.

domingo, 8 de julho de 2012

ESTOQUE DE CAMISINHAS – PARTE 2


É claro que voltei ao templo das underwears masculinas. E é óbvio que meu ex-chefe charmosérrimo estava me esperando feito um cachorrinho daqueles que a gente amarra do lado de fora do supermercado. E é mais certo ainda que não entrei pela porta da frente como ele poderia supor, mas dei um jeito de me esgueirar pela copa e ficar lá no fundo do salão mirando-o feito uma águia prestes a colocar as garras em seu coelho indefeso e apetitoso. Ok, de indefeso ele não tem nada, agora de apetitoso, hum, só de vê-lo me deu água na boca.

Há várias vantagens em se voltar à festa assim de soslaio. A principal, na minha opinião, é poder observar a pessoa que a gente está a fim e, pelo sinais corporais que ela emite, saber se as intenções dela são as mesmas que as nossas. Eu não tinha dúvida que o Toni me queria. Só me deu vontade de confirmar o quanto era esse querer. Porque eu estava descendo uma ribanceira de tesão por ele e não queria me arranhar no asfalto do mais ou menos: queria me esfolar viva num rala e rola daqueles de doer de tão bom.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

ESTOQUE DE CAMISINHAS


Fui numa sex shop abastecer o meu estoque de camisinhas, que andava a zero. Comprei de todos os sabores, cores, texturas e tamanhos, principalmente - menos P, porque nessa vida a gente encontra M que acha que é G, P que acha que é M e G que se sente Extragrande, mas nunca encontra alguém que pense que o seuzão é menor do que a média nacional. Então é melhor satisfazer a todos os egos e ter sempre números vários para, na confusão, ninguém saber de fato o que é, nem o que tem. Aliás, acho que nem são fabricadas camisinhas em formas mínimas e, se são, com certeza o tamanho estampado é “super” alguma coisa. Em matéria de sexo, vale mais o que você pensa que é do que a sua genética.

Espalhei as camisinhas nas bombonieres da sala, da cozinha, do quarto, feito tira gostos, pois que não são outra coisa. Vão bem a qualquer hora do dia e da noite, são ótimos para se oferecer a uma visita e só de olhar dão vontade de comer. Tenho camufladas até na área de serviço, nunca se sabe onde um amasso bem dado pode nos levar. Minha faxineira acha graça, diz que nunca viu uma casa que tem mais camisinha do que chocolate. “Chocolate dá espinha, meu bem”, respondo sempre. Não preciso dizer que sexo faz bem pra pele, preciso?

sexta-feira, 22 de junho de 2012

INDECÊNCIA


Recebi um email, desses que não têm dono, com uma historinha que casou muito bem com o assunto que eu ia abordar hoje. Diz mais ou menos assim: um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, e no centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas.

Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Um terceiro foi trocado e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui".


É mais ou menos isso que acontece em relação ao sexo. Desde que o mundo é mundo ele existe no reino animal, mas em algum momento da história da humanidade alguém decretou: “É uma pouca vergonha!”. E desde então estamos fadados a acreditar que a prática desse saudável e delicioso exercício é sujo, feio, imoral e vergonhoso. Desde então somos doutrinados a acreditar que só o papai-e-mamãe para a procriação é permitido - e olhe lá, só casando, heim? - e todas as outras variáveis e orifícios são coisa de gente imunda. Sexo? Só entre um homem e uma mulher. Sexo? Só pela frente, por trás é pecado. Sexo? Só com amor. Sexo? Ui, essa palavra me dá arrepios.